segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Caroline


 Era o fim da tarde e o sol aparecia-lhe pela ultima vez, uma fresta de luz que atravessava o quarto cada vez mais escuro. Caroline, como de costume, estava sentada em sua cadeira de balanço, folheando um álbum de fotografias antigo.

 As fotografias em preto e branco, porém amareladas com o tempo traziam a sua face um leve sorriso. Uma mistura de saudades e felicidade por ainda poder se lembrar. “Anos de ouro”. Pensou ela, ao visualizar-se com trajes de banho ao lado do falecido marido.

 Olhou pela janela para o jardim, anteriormente repleto de orquídeas, onde um casal costumava deitar-se sob a luz do luar, onde um charmoso rapaz colhia flores para enfeitar a mesa do desjejum, onde uma garotinha de feições semelhantes as suas sujava-se de terra sob o olhar vigilante desse seu charmoso pai. Um jardim agora coberto pelo matagal. Voltou sua atenção para o álbum, admirando a pequenina do jardim, logo adiante se casando com bonito moço estrangeiro, mais a frente seu único netinho cujo só o vira uma única vez. “O tempo é o que há de mais incrível!”, disse ela em sua admiração tristonha.

 Passou um grande tempo contemplando o mato. Podiam ter corrido horas, dias ou anos, a única coisa a qual lhe pertencia e importava estava ali firmemente preso em seus braços frágeis. Seu maior tesouro. Detestou a solidão com todas as forças que lhe restavam e as lágrimas molharam seu rosto de papel.

 Devia estar sonhando, pois por entre as pálpebras fechadas, Caroline via a figura de seu lindo amante das flores estendendo-lhe a mão. Abriu seus olhos e olhou pela janela. Não havia mais crepúsculo, nem matagal. Em seu lugar havia um grande sol e um esplendoroso jardim de orquídeas, à sua frente o rapaz ainda sorria caloroso. Toda a tristeza de dissipou instantaneamente e ela se viu jovem correr para os braços de seu grande amor.

 O velho e embolorado álbum escorregou de suas mãos frouxas e caiu ruidosamente no chão. Caroline não se importou, pois agora descansava em paz.

sábado, 6 de agosto de 2011

Rosa em Mármore

 Lá se vai. Vai com minhas expectativas e esperanças, alegrias e sonhos. Ela que leva meu brilho, carrega também o fardo de minha dor, minhas angustias e pensamentos tão obscuros que os escondia de mim mesmo.
 Daqui de cima vejo-a tão bela e faceira, seu vestido branco a rodopiar na relva enquanto seus cabelos brincam no ar. E os olhos! Ah, os olhos! Em cores vivas e penetrantes! Bela flor que pensa ser mulher, mas traz consigo a maturidade de uma criança, a certeza de um adolescente e a sensatez de um maluco.
 Embriaga-me em sua pureza vil, seu caráter há muito esquecido, move seus passos, move-me contigo. Leva-me as nuvens só para ter o prazer de me ver cair, faz-me novo só para então descartar-me.  Ela que se entrega a mim para depois roubar-me o sono, invadindo as imagens que chamo de pesadelos. Pesadelos horríveis onde me deleito no prazer de seus toques, no sabor de seus beijos, na fingida paixão em seus olhos. Ah seus olhos! Ah suas cores!
 Ah moça, sua revelação esta breve! Descobrirão as manhas por trás de seus sorrisos, a crueldade no balançar de seu vestido, a imaturidade em seus olhos. E esses olhos, que me perseguem e me fitam mesmo quando os meus estão fechados!
 Como pude eu ser tão tolo em crer-te, confidenciar-te minha forma de felicidade? Ah devem ser os olhos! Como podes linda menina ser tão dissimulada e perversa em sua mais charmosa delicadeza, dilacerar-me em teu sorriso mais brando quando pronuncias o meu nome?
 Não importa, será desmascarada garota! A estátua de mármore que lhe esculpi agora se despedaça em migalhas, poeira branca pelo ar! E em cada pedaço descubro um pouco mais de ti e consequentemente de mim.  A destruição começa e seu cheiro queima minhas narinas, esse cheiro podre de primavera!
 Seu fim se aproxima, eu sinto. Já posso sentir meu coração bater mais calmo, lágrimas não sujam o meu rosto e eu sou mais forte agora! Estas se acabando a paz me encontrará! É luz o que vejo no fim da estrada, a felicidade estará a minha espera! E seus olhos!? Aah eles não me incomodarão nunca mais! Serão como brisa num dia quente de verão, despercebidos e saudosos!

Adianto meu adeus, linda menina! 

Aqueles Dias

 Sento-me em meio à clareira, a primavera traz ao ar o cheiro das flores espalhadas pelo campo. O som de minha respiração é abafado pelo farfalhar de folhas nas árvores ao redor. O vento uivante é frio enquanto minha cabeça fervilha e rodopia em diferentes planos, mantendo-se, porém, fixa ao resto de  meu corpo inerte. Inércia talvez seja esta a lei na qual eu me mova.

 Muda agonia se espalha em mim, corroendo meu coração como ácido. E novamente me pergunto: “Por quê?” E novamente não sei responder.      Encho-me de certeza até a dúvida me consumir; creio intensamente, no entanto o ceticismo me toma. Falta-me o ar!

 A claridade daqueles dias me cega, me transformando em mero espectador de memórias. Saudade? Esperança? Como se denomina? A confusão envolve esse corpo púbere.

 Uma maré tristonha provinda de uma dor antiga teima em me açoitar. Serei eu o culpado por ser crente em ti? Ou serás tu que me ludibriaste com a pureza em suas palavras, a certeza em suas falsas promessas, a paixão em seu toque.

 Sem me conter, um grito escapa-me a garganta, rasgando meus pulmões, trasbordando minha alma. Pássaros fogem em sua balburdia musical ecoando agonia.

Silencio.

 A carne sangra onde anteriormente minhas unhas estavam cravadas. A dor me traz de volta ao chão. Meu corpo recobre os movimentos e o clarão que, me ofuscava olhos, se dissipa. “Não há saída é preciso se colocar em pé!” Inconscientemente me sinto levantar, obedecendo ao comando imaginário.  Como todo bom ser civilizado empurro toda a dor para o fundo de meu âmago e uma, finalmente, incontestável decisão se faz em palavras: “Não desista! Siga em frente!”